quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A crise econômica grega aproxima-se dos EUA

Créditos de: Resistir.info

por Niall Ferguson [*]

Começou em Atenas. Está se estendendo para Lisboa e Madrid. Mas seria um erro grave supor que a crise da dívida soberana que está se desdobrando ficará confinada às economias mais fracas da zona euro. Porque isso é mais do que apenas um problema mediterrâneo de âmbito local. É uma crise fiscal do mundo ocidental. Suas ramificações são muito mais profundas que a maioria dos investidores supõe atualmente.

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Há naturalmente uma característica distinta na crise da zona do euro. Devido ao modo como foi concebida a União Monetária Européia, não há de fato nenhum mecanismo de socorro para o governo grego por parte da União Européia, de outros estados-membros ou do Banco Central Europeu (artigos 123 e 125 do Tratado de Lisboa). É verdade que o Artigo 122 pode ser invocado pelo Conselho Europeu para ajudar um estado-membro "seriamente ameaçado por dificuldades severas causadas por desastres naturais ou ocorrências excepcionais além de seu controle", mas neste momento ninguém quer fingir que o escancarado déficit da Grécia foi um ato de Deus. Nem há possibilidade da Grécia desvalorizar sua moeda, como deveria ter feito nos dias pré-UME do dracma(antiga moeda grega). Não há nem mesmo um mecanismo para que a Grécia deixe a zona do Euro.

Isso deixa apenas três possibilidades: um dos mais excruciantes esmagamentos fiscais na história moderna da Europa – reduzir o déficit de 13% a 3% do produto interno bruto em apenas três anos; moratória imediata de parte ou de toda a dívida do governo grego; ou (o mais provável, como apontado por funcionários alemães na quarta feira) algum tipo de socorro liderado por Berlim. Dado que nenhuma destas opções é atrativa, e porque qualquer decisão sobre a Grécia gera implicações para Portugal, Espanha e possivelmente outros países, deve haver muitas negociações cautelosas antes alcançar uma delas.

A CRISE É DE NATUREZA GERAL

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Mas as idiossincrasias (na economia significa "risco não-sistemático ou específico) da zona do euro não devem distrair-nos da natureza geral da crise fiscal que agora aflige a maioria das economias ocidentais. Chame-se a isto geometria fractal da dívida: o problema é essencialmente o mesmo da Islândia à Irlanda, à Inglaterra e aos Estados Unidos. Apenas as dimensões sã muito diferentes.

O que estamos aprendendo no mundo ocidental é que não existe o tal almoço gratuito keynesiano. As dívidas não nos "salvam" nem a metade do que o faria a política monetária – taxas de juros nulas mais a facilidade quantitativa (quantitative easing) [NT] . Primeiro o impacto do gasto do governo (o sagrado "multiplicador") tem sido muito menor do que os proponentes do estímulo esperavam. Em segundo lugar, há uma boa dose de "vazamento" das economias abertas num mundo globalizado. Por fim, e crucialmente, explosões da dívida pública incorrem em contas que vencem muito mais rápido do que esperamos.

Para a maior economia do mundo, os EUA, o dia do juízo ainda parece reconfortantemente remoto. Quanto pior ficam as coisas na zona do euro, mais o dólar americano se revigora, à medida em que investidores nervosos alocam seus recursos no "porto seguro" da dívida governamental americana. Esse efeito pode persistir por alguns meses, do mesmo modo como o dólar e os Tesouros se reanimaram quando estávamos no fundo do poço do pânico bancário no final de 2008.

Entretanto, mesmo uma olhada casual na posição fiscal do governo federal (para não falar dos estados) torna absurda a frase "porto seguro". A dívida do governo americano é um porto seguro no mesmo sentido em que Pearl Harbor o foi em 1941.

EQUILÍBRIO ORÇAMENTAL NUNCA MAIS

Mesmo pelas novas projeções orçamentárias da Casa Branca, a dívida federal bruta detida pelo público excederá 100% do PIB já nos próximos dois anos. Neste ano, como no ano passado, o déficit federal estará em volta dos 10% do PIB. As projeções de longo prazo do Gabinete de Orçamento do Congresso sugerem que os Estados Unidos nunca mais administrarão um orçamento equilibrado. É isso mesmo, nunca.

O Fundo Monetário Internacional publicou recentemente estimativas dos ajustes fiscais que as economias desenvolvidas teriam que fazer para restabelecer a estabilidade fiscal na próxima década. Os piores foram o Japão e a Inglaterra (um aperto fiscal de 13% do PIB). Em seguida vêm Irlanda, Espanha e Grécia (9%). E no sexto lugar? Os EUA, que terão que apertar a política fiscal em 8,8% do PIB para satisfazer o FMI.

Explosões da dívida pública prejudicam as economias de várias maneiras, como vários estudos empíricos têm mostrado. Elevando-se os temores de moratória e/ou depreciação da moeda acima da inflação real, aumentam as taxas de juros reais. Taxas de juros mais altas, por sua vez, agem como obstáculos ao crescimento, especialmente quando o setor privado está também pesadamente endividado – como no caso da maioria das economias ocidentais, não apenas os EUA.

Apesar da taxa de poupança interna americana ter subido desde que começou a Grande Recessão, não aumentou o suficiente para absorver um trilhão de dólares de emissões do Tesouro por ano. Assim, somente duas coisas até agora ficaram entre os EUA e retornos maiores para os títulos: compras dos títulos federais (e títulos hipotecários, que muitos vendedores essencialmente trocaram por títulos federais) pelo Federal Reserve e acumulação de reserva pelas autoridades monetárias da China.

Mas agora o Fed está reduzindo essas compras e deve acabar com a quantitative easing. Ao mesmo tempo, os chineses reduziram abruptamente suas compras de títulos federais americanos de cerca de 47% das emissões novas em 2006 para 20% em 2008 e para estimados 5% no último ano. Não é de admirar que o Morgan Stanley suponha que os rendimentos dos títulos a 10 anos se elevarão de cerca de 3,5% a 5,5% este ano. Sobre uma dívida federal bruta se aproximando rapidamente de US$1,5 trilhões, isso significa mais de US$300 bilhões de pagamentos de juros adicionais – e chega-se lá bem depressa com o vencimento médio da dívida hoje inferior a 50 meses.

O novo orçamento da administração Obama supõe alegremente um crescimento real do PIB de 3,6% nos próximos cinco anos, com inflação média de 1,4%. Mas, com taxas reais de juros crescentes, o crescimento pode muito bem ser menor. Nestas circunstâncias, os pagamentos de juros podem elevar sua participação na receita federal – de um décimo a um quinto a um quarto.

Na semana passada, o Moody's Investors Service avisou que a classificação (rating) de crédito AAA dos EUA não pode ser considerada líquida e certa. Esse aviso lembra a questão fatal de Larry Summers (formulada antes do seu retorno ao governo): "Por quanto tempo o maior tomador de empréstimos do mundo pode continuar sendo a maior potência mundial?"

Refletindo sobre isso, parece apropriado que a crise fiscal do ocidente tenha começado na Grécia, o berço da civilização ocidental. Ela logo cruzará o canal para a Inglaterra. Mas a questão chave é quando esta crise chegará ao ultimo bastião do poder do Ocidente, no outro lado do Atlântico.

[NT] quantitative easing (facilidade quantitativa): medida pela qual o banco central compra ativos financeiros de instituições financeiras criando para isso moeda sem lastro.

[*]Niall Ferguson é editor contribuidor do Financial Times e autor The Ascent of Money: A Financial History of the World.

4 comentários:

Bilder disse...

Pois é amigos,e a verdade é que mais uma vez temos bancos americanos ao barulho,Goldman Sachs?Onde é que já vimos isto??As crises vão e voltam mas as elites financeiras e seus agentes permanecem na boa onda!!Hummm...
entretanto uma bomba rebentou à porta da JP Morgan na Grécia.

Diogo disse...

Toda esta crise é um jogo do Poder Financeiro. Retiraram simplesmente moeda de circulação. Em 1929 aconteceu o mesmo.

Leo Cardoso disse...

Parece até que estamos nos aproximando, a passos largos, do dia em que o inferno descerá dos céus para o "deleite" daqueles que acreditam no armagedom!
Explico: os Estados meteram-se a salvar empresas e bancos entronado o risco moral, enveredaram-se para o caminho do "capitalismo cartorial", como se as leis econômicas pudessem ser retratadas ao gosto dos "benevolentes" policymackes.
A quem caberá a tarefa de salvar os fanfarrões Estados moribundos!? Se a União Européia o fizer por meio de pacotes, jogará o Maastrich descarga abaixo! Será uma piada de muito mal gosto para o Euro se Portugal, Grécia e Itália comparecerem ao FMI com "pedintes" - a bem da verdade, o FMI não poderá resgatá-los pelo simples fato de não possuir recursos para tal!
Mas, de fato, os "civilizados" se esqueceram do óbvil: as faturas, um dia, vencerão!
Gostei dessa analogia entre os T-bonds e Pearl Harbor:"T-bonds 1941" - estão a perder a lógica da compostura em meio a taxas de juros nominais próximas do nada!
A que ponto a pax americana chegou: não será por agora, mas ao ritmo da alcunha dos déficits de trilhões a macroeconomia estadunidense adernará, assim como a analogia daquele que havia sido o orgulho da Armada Americana (USS-Arizona) até a data, imediatamente anterior, ao do fatídico ataque!
No fundo todos sabem que adentraram numa dinâmica instável e aparentemente sem retorno. Haverá retorno: mas, de qualquer forma, é o caminho da desconstrução daquilo que construiram; mas cuja tangebilidade não existe(aperceberam-se da eloqüência!?). Os diretos permaneceram com o Clã financeiro, as faturas ficaram à ordem dos Tesouros: dívidas que seguem securitizadas institucionalmente pelas emissões de "faz de conta", sejam elas quase-moedas e/ou não; a serem quitadas ao custo do conforto material das próximas gerações. Em Versalhes tentaram algo semelhante contra o povo alemão: não precisa ser expert em história do século XX para saber do que daí resultou nas duas décadas seguintes!

vania disse...

parece que tudo está se repetindo, aconteceu igualzinho antes da segunda guerra mundial, uma grande crise mundial, não estamos longe de uma onde de choue que varrerá o mundo hipócrita de hoje em dia. a razão trinfará no final. leiam o lívro Talmud de Jmmanuel e saibam a verdade.Saalome