sábado, 23 de janeiro de 2010

Os EUA e a China: Um lado está perdendo, o outro está vencendo

Créditos de: Resistir.info
por James Petras [*]

O capitalismo asiático, nomeadamente a China e a Coreia do Sul, estão competindo com os EUA pelo poder global. O poder global asiático é conduzido pelo crescimento económico dinâmico, ao passo que os EUA prosseguem uma estratégia de construção de império conduzida pelo poder militar

Leitura de um dia do Financial Times

Mesmo uma leitura superficial de um único número do Financial Times (28/Dezembro/2009) ilustra as estratégias divergentes rumo à construção do império. Na primeira página, o artigo principal sobre os EUA é sobre os seus conflitos militares em expansão e a sua 'guerra ao terror', intitulado "Obama pede revisão da lista do terror" ("Obama Demands Review of Terror List"). Em contraste, há duas páginas de artigos sobre a China, os quais descrevem o lançamento pela China do mais rápido serviço de comboio de passageiros de longa distância e a decisão da China de manter a sua divisa ligada ao US dólar como mecanismo para promover o seu robusto sector exportador. Enquanto Obama vira o foco central dos EUA para a quarta frente de batalha (Yemen) na 'guerra ao terror' (após o Iraque, Afeganistão e Paquistão), o Financial Times relata na mesma página que um consórcio sul coreano ganhou um contrato de US$20,4 bilhões de dólares para desenvolver centrais nucleares civis para os Emirados Árabes Unidos, batendo os seus competidores estado-unidenses e europeus.

Na página dois do FT há um artigo mais extenso a acrescentar pormenores sobre o novo sistema ferroviário chinês, destacando a sua superioridade sobre o serviço ferroviário dos EUA. O ultra-moderno comboio chinês transporta passageiros entre as duas maiores cidades, 1.100 quilómetros, em menos de 3 horas, ao passo que o Amtrack 'Express' dos EUA gasta 3 horas e meia para cobrir 300 quilómetros entre Boston e Nova York. Enquanto o sistema ferroviários estado-unidense deteriora-se por falta de investimento e manutenção, a China gastou US$17 bilhões de dólares para construir a sua linha expressa. A China planeia em 2012 construir 18 mil quilómetros de novas vias para o seu sistema ultra-moderno, enquanto os EUA gastarão uma quantia equivalente para financiar a sua 'escalada militar' no Afeganistão e Paquistão, bem como a abertura de uma nova guerra no Yemen.

A China construi um sistema de transporte ligando produtores e mercados de trabalho das províncias interiores aos centros manufactureiros e portos na costa, enquanto na página 4 o Financial Times descreve como os EUA está preso à sua política de confrontar a 'ameaça islâmica' como uma infindável ' guerra ao terror'. As décadas de guerras e ocupações de países muçulmanos desviaram centenas de milhares de milhões de dólares de fundos públicos para uma política militarista sem benefício para os EUA, ao passo que a China moderniza a sua economia civil. Enquanto a Casa Branca e o Congresso subsidiavam e saciavam o estado militarista-colonial de Israel com a sua insignificante base de recursos e de mercado, alienando 1,5 bilhões de muçulmanos, [1] o produto interno bruto (PIB) da China crescia 10 vezes mais ao longo dos últimos 26 anos. [2] Enquanto os EUA concediam mais de US$1,4 trilhões à Wall Street e aos militares, aumentando os défices fiscais e em conta corrente, duplicando o desemprego e perpetuando a recessão, [3] o governo chinês libertava um pacote de estímulo destinado aos seus sectores internos da manufactura e da construção, levando a um crescimento do 8% do PIB, a uma redução significativa do desemprego e à 'reactivação de economias ligadas' na Ásia, América Latina e África. [3]

Enquanto os EUA gastavam tempo, recursos e pessoal em promover 'eleições' para os seus clientes corruptos no Afeganistão e no Iraque, e participar em inúteis mediações entre o seu intransigente parceiro israelense e o seu impotente cliente palestino, o governo sul coreano apoiou um consórcio encabeçado pela Korea Electric Power Corporation na sua proposta vencedora de US$20,4 bilhões no contrato da central nuclear, abrindo o caminho para outros contratos de milhares de milhões de dólares na região. [4]

Enquanto os EUA gastavam mais de US$60 bilhões de dólares em policiamento interno e na multiplicação do número e dimensão das suas agência de 'segurança interna' em busca de potenciais 'terroristas', a China estava a investir US$25 bilhões de dólares para 'cimentar as suas relações no comércio de energia' com a Rússia. [5]

A história contada pelos artigos e títulos do número de apenas um dia do Financial Times reflecte uma realidade mais profunda, uma realidade que ilustra a grande divisão do mundo de hoje. Os países asiáticos, conduzidos pela China, estão a atingir o status de potência mundial com base nos seus maciços investimentos internos e no estrangeiro em manufactura, transporte, tecnologia, mineração e processamento de minérios. Em contraste, os EUA é uma potência mundial em declínio com uma sociedade em deterioração resultante da sua construção imperial baseada no poder militar e da sua economia centrada nas finanças-especulação.

1- Washington busca clientes militares menores na Ásia; ao passo que a China expande o seu comércio e acordos de investimento com grandes parceiros económicos – Rússia, Japão, Coreia do Sul e por aí além.

2- Washington drena a economia interna para financiar guerra além-mar. A China extrai recursos minerais e energéticos para criar o seu mercado interno de empregos na manufactura.

3- Os EUA investem em tecnologia militar para alvejar insurgentes locais em desafio aos seus regimes clientes; a China investe em tecnologia civil para criar exportações competitivas.

4- A China começa a reestrutura a sua economia rumo ao desenvolvimento do interior do país e estabelece maiores gastos sociais para corrigir seus desequilíbrios e desigualdades brutais enquanto os EUA resgatam e reforçam o seu sector financeiro parasita, o qual saqueou as indústrias (despojamento de activos através de fusões e aquisições) e especula em objectivos financeiros sem qualquer impacto sobre o emprego, a produtividade e a competitividade.

5- Os EUA multiplicam guerras e acumulações de tropas no Médio Oriente, Sul da Ásia, Corno da África e Caribe; a China proporciona investimentos e empréstimos de mais de US$25 bilhões para a construção de infraestrutura, extracção de minérios, produção de energia e instalações de montagem na África.

6- A China assina acordos de comércio e investimento de muitos milhares de milhões de dólares com o Irão, Venezuela, Brasil, Argentina, Chile, Peru e Bolívia, assegurando acesso a recursos energéticos, minerais e agrícolas estratégicos; Washington proporciona US$6 bilhões de ajuda militar à Colômbia, assegura sete bases militares do presidente Uribe (para ameaçar a Venezuela), apoia um golpe militar na minúscula Honduras e denuncia o Brasil e a Bolívia por diversificarem os seus laços económicos com o Irão.

7- A China aumenta relações económicas com economias latino-americanas dinâmicas, que incorporam mais de 80% da população do continente; os EUA fazem parceria com o estado fracassado do México, o qual tem o pior desempenho económico do hemisfério e onde poderosos carteis da droga controlam regiões vastas e penetram profundamente o aparelho de estado.

Conclusão

A China não é um país capitalista excepcional. Sob o capitalismo chinês, o trabalho é explorado; as desigualdades de riqueza e de acesso aos serviços são desenfreadas; agricultores camponeses são deslocados por projectos de mega-barragens e companhias chinesas implacavelmente extraem minérios e outros recursos naturais no Terceiro Mundo. Contudo, a China criou milhões de empregos manufactureiros, reduziu a pobreza mais rapidamente e para mais pessoas no mais curto intervalo de tempo da história. Os seus bancos financiam principalmente a produção. A China não bombardeia ou devasta outros países. Em contraste, o capitalismo estado-unidense foi comprometido numa monstruosa máquina militar global que drena a economia interna e reduz o padrão de vida interna a fim de financiar as suas infindáveis guerras no estrangeiro. As finanças, o imobiliário e o capital comercial minam o sector manufactureiro, retirando lucros da especulação e de importações baratas.

A China investe em países ricos em petróleo; os EUA atacam-nos. A China vende pratos e balões para festas de casamentos afegãs; aviões sem piloto dos EUA lançam bombas sobre as celebrações. A China investe em indústrias extractivas, mas, ao contrário dos colonialistas europeus, constrói rodovias, portos, campos de aviação e proporciona crédito fácil. A China não financia nem arma guerras étnicas e 'rebeliões coloridas" como a CIA dos EUA. A China auto-financia o seu próprio crescimento, comércio e sistema de transportes; os EUA afundam sob uma dívida de muitos bilhões de dólares para financiar suas guerras infindáveis, salvar os seus bancos da Wall Street e impulsionar sectores não produtivos enquanto muitos milhões permanecem desempregados.

A China atrai os consumidores do mundo. As guerras globais dos EUA provocam terroristas aqui e lá fora.

A China pode deparar-se com crises e mesmo rebeliões de trabalhadores, mas ela tem os recursos económicos para acomodá-los. Os EUA estão em crise e podem enfrentar rebeliões internas, mas esgotou o seu crédito e as suas fábricas estão todas lá foram e as suas bases e instalações militares além-mar são passivos, não activos. Há cada vez menos fábricas nos EUA para reempregar os seus trabalhadores desesperados. Uma sublevação social poderia ver os trabalhadores americanos a ocuparem as instalações vazias das suas antigas fábricas.

Para tornarmo-nos um 'estado normal' temos de começar tudo outra vez. Fechar todos os bancos de investimento e bases militares no estrangeiro e retornar à América. Temos de começar a longa marcha rumo à reconstrução industrial para atender às nossas necessidades internas, viver dentro do nosso próprio ambiente natural e renunciar à construção do império em favor da construção de uma república socialista democrática.

Quando folhearemos o Financial Times ou outro jornal qualquer e leremos acerca da nossa própria ferrovia de alta velocidade a transportar passageiros americanos de Nova York para Boston em menos de uma hora? Quando será que as nossas próprias fábricas fornecerão material nosso às lojas? Quando construiremos geradores de energia eólicos, solares e baseados no oceano? Quando abandonaremos as nossas bases militares e deixaremos os senhores da guerra, os traficantes de droga e os terroristas do mundo enfrentarem a justiça dos seus próprios povos?

Será que alguma vez leremos acerca disto no Financial Times ?

Na China, tudo começou com uma revolução...
03/Janeiro/2010

1. Financial Times, page 7.
2. FT, page 9.
3. FT, page 12.
4. FT, page 13.
5. FT, page 3.


[*] Co-autor de La Face cachée de la mondialisation : L'Impérialisme au XXIe siècle , autor de Zionism, Militarism and the Decline of US Power e autor da introdução a Revolutionary Social Change in Colombia: The Origin and Direction of the FARC-EP . Email: jpetras@binghamton.edu .

Um comentário:

ACrivelli - A Tribuna disse...

Apesar dos indicadores mostrarem que sim, eu não acredito em vencedor nem em perdedor nessa batalha, estão todos do mesmo lado.
A economia chinesa esta irremediavelmente atrelada a economia americana e vice e versa. Acredito que os doi países são os dois lados da mesma moeda. Os dois farão de tudo para se sustentar nessa corda banba e corroída que é o capitalismo consumista e sustentar ao outro. Mas na hora ''H'' o acordo estará fechado. Não importa o vencedor, importa o objetivo.