domingo, 10 de janeiro de 2010

O grande buraco negro e o futuro do dólar

Créditos de: Resistir.info
por F. William Engdahl
[*]

http://resistir.info/crise/imagens/cifrao.jpg

Durante meses o governo dos EUA insistiu em que o pior da "recessão" está chegando ao fim e que os primeiros sinais da retomada estão à vista. A realidade é o oposto. A crise financeira que começou em agosto de 2007 no pequeno segmento de "sub-prime", ou de alto risco, relativo ao mercado de dívidas hipotecárias de US$ 20 bilhões, está agora se espalhando, legalmente, para o segmento "prime", ou de alta qualidade. A economia da única superpotência mundial está se tornando cada vez mais parecida com a do Império Romano no século IV, quando este colapsou em anarquia, dívidas e caos.

As nações do mundo estão tomando medidas para se afastar da dependência do dólar. China, Rússia, Brasil e Cazaquistão estão em busca de uma nova moeda para as reservas. A China está silenciosamente fazendo acordos bilaterais de swap de moedas com parceiros comerciais asiáticos, assim como a América Latina e os antigos países da União Soviética. A principal moeda comercial da Área de Livre Comércio China-ASEAN [1] provavelmente não será o dólar. Na América Latina, os países da ALBA [2] estão mudando do dólar para o sucre como divisa do comércio, a partir de janeiro de 2010. O Mercosul passará a recusar o dólar no comércio exterior em 2011.

Para a divisa de reserva mundial, o pior ainda está por vir.

A REALIDADE ECONÔMICA DOS EUA

A realidade da economia americana é o oposto da propaganda da Wall Street.

Em termos econômicos reais, a economia dos EUA já está numa depressão. A economia americana vive sua pior contração desde a primeira derrocada da Grande Depressão no início dos anos 30.

Como um antigo funcionário do Tesouro no governo Reagan recentemente declarou: "Não sobrou economia para recuperar. A economia manufatureira dos EUA foi perdida para as exportações e para a ideologia do livre comércio. Foi substituída por uma "Nova Economia" mítica baseada em serviços. Foi alimentada pelas taxas de juros artificialmente baixas do Federal Reserve, que produziram uma bolha imobiliária, e pela desregulamentação financeira do 'mercado livre', o que liberou os gânsters financeiros para atingir novas alturas de alavancagem de débito e produtos financeiros fraudulentos".

Quando esta economia "virtual" entrou em colapso, a riqueza dos americanos investida em imóveis, pensões e poupança também colapsou. A economia da dívida levou os americanos a alavancarem seus ativos. Eles refinanciaram suas casas e gastaram o capital. Gastaram seu limite em numerosos cartões de crédito. Trabalharam em tantos empregos quantos puderam. A elevação das dívidas e os múltiplos rendimentos familiares mantiveram a economia americana nas últimas duas décadas.

Agora, subitamente, os americanos já não podem tomar empréstimos para gastar. Estão afogados em dívidas. Os empregos estão desaparecendo. O consumo americano, aproximadamente 70% do PIB, está morto. Os americanos que ainda têm empregos estão poupando para se prevenir da possibilidade da perda do emprego. Milhões estão sem lar. Mais de 14% de todas as hipotecas domésticas estão em incumprimento ou pelo menos com um pagamento atrasado, um recorde histórico. A tendência é piorar. Alguns estão morando com suas famílias e amigos; outros estão vivendo em cidades de tendas.

O declínio atual da economia está longe de acabar. Este declínio continuará até se deteriorar, será extremamente prolongado, extremamente profundo e não responderá aos estímulos econômicos tradicionais. A economia dos EUA está presa numa clássica "armadilha da dívida" do Terceiro Mundo.

A economia Americana sofre de severos problemas estruturais ligados à relação dívida/rendimento do consumidor. As famílias não conseguem acompanhar a inflação e já não podem contar com o aumento excessivo da dívida para encontrar expedientes para manter o padrão de vida. As questões estruturais não estão sendo tratadas pelos programas de estímulos de Obama. Elas não podem ser tratadas sem uma mudança significativa e fundamental nas políticas econômicas e comerciais do governo, as quais na melhor das hipóteses ainda arrastarão a depressão econômica durante muitos anos. Desde 2007 os consumidores americanos têm poupado para liquidar as suas enormes dívidas de cartão de crédito, automóvel e moradia. Eles não estão consumindo e não consumirão por um longo tempo. Nos últimos 12 meses eles reduziram sua dívida em impressionantes US$ 2 bilhões. Isso reduziu seriamente o crescimento econômico, e é o motor da depressão. Não há opção.

Se calcularmos os dados sem a manipulação oficial ou maquilagem contábil, a estimava real de desemprego está hoje acima de 22%, não os 10% oficiais. O PIB está declinando à taxa mais severa desde a Segunda Guerra Mundial e a aproximar-se rapidamente dos níveis da Grande Depressão.

A produção manufatureira dos EUA está entrando em colapso. Os níveis da dívida familiar são os mais altos da história americana, acima de 300% do rendimento disponível. A dívida corporativa é igualmente alta. A dívida governamental atingiu seu record e logo alcançará 100% do PIB. A economia dos Estados Unidos foi apanhada na armadilha da dívida que ela mesma fabricou.

PERSPECTIVAS PARA O DÓLAR

A partir de 1985, quando os EUA passaram à posição de devedor líquido pela primeira vez desde a Primeira Guerra Mundial, tornaram-se o maior devedor líquido mundial. Em janeiro de 2009, a posição de investimento internacional líquido dos EUA foi de US$ 3,47 bilhões, segundo o Departamento de Comércio. Isso representa a diferença entre o valor dos ativos americanos na posse de estrangeiros (US$ 23,36 bilhões) e o valor dos ativos estrangeiros na posse de americanos (US$ 19,89
bilhões). Os EUA, como entidade singular, pública e privada, deve ao mundo US$ 3,47 bilhões. A maior parte disso é para a China, assim como para Japão e Rússia. Os EUA são hoje uma superpotência militar mas um anão econômico. Apenas em 2008, a dívida líquida dos EUA aumentou de US$ 1,33 bilhões, ou 62%. A tendência não é melhorar, já que salvamentos bancários e outras proteções econômicas ficam mais caras. Os estrangeiros agora detêm cerca de 50% da dívida publicamente declarada do governo federal. Se os investidores estrangeiros reduzirem significativamente as suas compras de futuros títulos do Tesouro americano, as taxas de juros dos EUA aumentarão e o dólar desabará. O status de devedor líquido dos Estados Unidos com estrangeiros está no nível mais alto da história americana.

A principal fonte de apoio ao dólar vem dos países com excedente comercial com os EUA, cujos bancos tem poucos lugares mais seguros para investir esses dólares do que a dívida governamental dos EUA. Os maiores compradores de dívida em dólar no passado recente, por diferentes razões, foram os bancos centrais da Rússia, Japão, e, muito à frente dos outros – o Banco Popular da China.

O modelo americano de défices comerciais e de transações correntes não é sustentável. Ninguém pode dizer quando o dólar cairá ainda mais, mas deve cair nos próximos meses. Somente uma guerra dramática e inesperada poderá concebivelmente comprar um pouco mais de tempo para o dólar. E mesmo isso não é certo, tamanhos são os déficits.

Os Estados Unidos estão hoje presos numa armadilha mortal de dívidas, assim como a Argentina e outros países do Terceiro Mundo estiveram nos anos 80. Mas isso não é tudo. As perspectivas de que os déficits do Governo Federal dos EUA continuem são também extremamente negativas.

CONCLUSÃO

O orçamento do governo americano saltou de US$ 455
bilhões em 2008 para US$ 2 trilhões este ano, com outros US$ 2 trilhões para 2010. Obama acaba de intensificar a cara guerra no Afeganistão, e iniciou uma nova guerra no Paquistão. Não há maneira de financiar esses déficits a menos que se imprima dinheiro.

O orçamento do governo americano está deficitário em 50%. Isso significa que metade de cada dólar que o governo federal gasta tem que ser tomado emprestado ou impresso. Mas o mundo está ficando cada vez menos predisposto a emprestar US$ 2 bilhões por ano a Washington.

O maior credor dos EUA, a China, está avisando Washington para proteger os investimentos da China na dívida americana, e discutindo uma nova moeda de reserva para substituir o dólar antes que ele colapse. A China está gastando seus dólares americanos na aquisição de ouro e estoques de matérias-primas.

De acordo com fontes bem posicionadas na Arábia Saudita, tem havido reuniões secretas nos últimos meses entre os principais produtores de petróleo árabes, inclusive a Arábia Saudita, e, segundo informações, também a Rússia, com os principais países consumidores de petróleo, incluindo dois ou três dos maiores países importadores de petróleo – China e Japão. O seu projeto é criar silenciosamente a base para quebrar a longa "regra de ferro", que já dura 65 anos, de vender petróleo só em dólares americanos. Isso iria ser catastrófico para o papel do dólar.

Nada na política econômica de Obama é direcionado a salvar o dólar americano. A política de Obama, como a de Bush antes dele, é controlada pela Wall Street e pela indústria armamentista. A economia americana caminha para a depressão severa e o dólar irá junto, a menos que haja uma nova Guerra mundial, que Deus proíba.

Notas:
[1]- Association of Southeast Asian Nations (Associação das Nações do Sudoeste Asiático)
[2]- Alianza Bolivariana de los Pueblos de América

[*] Autor de Um século de guerras: a política petrolífera anglo-americana e a nova ordem mundial (A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order), publicado em oito línguas. É um dos mais amplamente analistas da evolução política e econômica atual, seus artigos e análises aparecem em vários jornais e revistas, e websites de grande repercussão. Além de discutir a geopolítica do petróleo e questões energéticas, escreveu sobre assuntos de agricultura, GATT, OMC, FMI, energia, política e economia por mais de 30 anos, desde o primeiro choque do petróleo e da crise mundial de cereais no início da década de 70. Seu livro Sementes da destruição: a agenda secreta da manipulação genética (Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation) documenta a tentativa de controlar o abastecimento de alimentos às populações mundiais. Ganhou o prémio 'Project Censored Award' para as Histórias mais Censuradas de 2007-08. Depois de se licenciar em política pela Universidade de Princeton (EUA), e de estudos em economia comparada na Universidade de Estocolmo, trabalhou como economista independente e jornalista de investigação em Nova Iorque, e mais tarde na Europa. É Investigador Associado no respeitado Global Research Center (www.globalresearch.ca) de Michel Chossudovsky e Professor Visitante Convidado na Universidade de Tecnologia Química em Pequim. Engdahl colabora regularmente com várias publicações internacionais sobre assuntos econômicos e políticos. Seu sítio web: www.engdahl.oilgeopolitics.net

Nenhum comentário: