terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Em 2010, novo ponto da 'virada' da crise sistémica global: O nó corrediço dos défices públicos começa a estrangular estados e sistemas sociais

Créditos de: Resistir.info

Matéria de 15 de Dezembro de 2009

por GEAB [*]

Segundo o LEAP/E2020, a crise sistêmica global vai experimentar um novo ponto de inflexão a partir da Primavera de 2010. Com efeito, nesta data as finanças públicas dos principais países ocidentais vão tornar-se inadministráveis porque se tornará simultaneamente evidente que novas medidas de apoio à economia se impõem em vista do fracasso dos diferentes estímulos de 2009 [1] e que a amplitude dos défices orçamentais proíbe toda nova despesa significativa.

Se este "nó corrediço" dos défices públicos que em 2009 os governos puseram voluntariamente em torno do pescoço, recusando-se a fazer com que o sistema financeiro assumisse o preço dos seus erros [2] , vai pesar duramente sobre o conjunto das despesas públicas, ele vai afectar muito particularmente os sistemas sociais dos países ricos empobrecendo sempre mais a classe média e os reformados, deixando os mais desfavorecidos à deriva. [3]

Paralelamente, o contexto de cessação de pagamentos de um número crescente de estados e de colectividades locais (regiões, províncias, estados federados) vai provocar um duplo fenómeno paradoxal de subida das taxas de juros e de fuga das divisas rumo ao ouro. Diante da ausência de uma alternativa organizada a um dólar estado-unidense cada vez mais fraco e a fim de encontrar uma alternativa à perda de valores dos títulos do tesouro (em particular americanos), os bancos centrais do mundo inteiro deverão em parte "reconverter-se ao ouro", o velho inimigo da Reserva Federal dos EUA, ainda que sem o pode declarar oficialmente. O desafio da retomada tendo já sido completamente perdido pelos governos e pelos bancos centrais [4] , este ponto de inflexão da Primavera de 2010 vai representar o princípio da transferência maciça dos 20 milhões de milhões de "activos fantasmas" [5] para os sistemas sociais dos países que os acumularam.

. Neste GEAB nº 40, a equipe do LEAP/E2020 desenvolve as suas análises acerca destes diferentes assunto sempre a apresentar a avaliação pormenorizada das suas antecipações para 2009 que obtiveram uma classificação geral de 72% [6] . Finalmente, nossos investigadores revelam as suas recomendações, em particular em relação a este mês: imobiliário comercial, divisas e rendimentos dos expatriados.

A actualidade encarregou-se rapidamente de alimentar a antecipação do GEAB nº 39 , a qual indicava que 2010 seria um ano marcado por três tendências, uma das quais seriam as cessações de pagamentos de Estados [7] : do Dubai à Grécia, passando pelos discursos cada vez mais inquietos das agências de classificação acerca das dívidas americana e britânica, ou pelo orçamento draconiano adoptado pela Irlanda e as recomendações da zona Euro para o domínio dos défices públicos, a incapacidade crescente dos estados para enfrentar as suas dívidas são o assunto principal dos media. Entretanto, no interior desta agitação mediática, nem todas as informações têm o mesmo valor: algumas não são senão elucubrações sobre o "dedo" do provérbio chinês [8] , quando outras tratam realmente da Lua.

No capítulo das elucubrações sobre o "dedo", este comunicado público do GEAB nº 40 apresenta o caso das análises sobre a Grécia.

Crise da dívida grega: Problema menor para Francoforte e severa advertência para Washington e Londres

Vejamos a Grécia. Encontra-se lá uma temática semelhante àquela que a nossa equipe havia denunciado no GEAB nº 33 , em Março de 2009, no momento em que a imprensa transmitia maciçamente a ideia de que a Europa do Leste iria arrastar o sistema bancário europeu e o Euro numa grande crise. Havíamos então explicado que esta "informação" não repousava sobre nada de crível e que não era senão "uma tentativa deliberada da parte da Wall Street e da City [2] para fazer crer uma fractura da UE e instilar a ideia de um risco "mortal" a pesar sobre a zona Euro, transmitindo continuamente falsas informações sobre o "risco bancário vindo da Europa do Leste" e tentando estigmatizar uma zona Euro "covarde" face às medidas "voluntaristas" americanas ou britânicas. Um dos objectivos é igualmente tentar desviar a atenção internacional do agravamento dos problemas financeiros em Nova York e Londres, ao mesmo tempo que a enfraquecer a posição europeia na véspera da cimeira do G20".

O caso grego é bastante semelhante. Não que não haja crise nas finanças públicas gregas (ela é bem real), mas as suas consequências supostas sobre a zona Euro são super-estimadas enquanto esta crise indica uma tensão crescente em torno das dívidas soberanas, calcanhar de Aquiles dos Estados Unidos e do Reino Unido. [9]

.

15/Dezembro/2009 Em primeiro lugar, é preciso recordar que a Grécia é o país que pior geriu o seu acesso à UE. Desde 1982, os diferentes governos gregos não fizeram outra coisa senão utilizar a UE como uma fonte inesgotável de subvenções, sem nunca chegar a modernizar as estruturas económicas e sociais do país. Como cerca de 3% do PIB provindo directamente de Bruxelas em 2008 [10] , a Grécia é de facto um país sob transfusão europeia desde há cerca de 30 anos. A degradação actual das finanças públicas do país não é portanto senão uma etapa suplementar numa longa evolução. Os responsáveis da zona Euro sabem desde há muito tempo que o problema grego rebentaria um dia.

Mas como o país representa 2,5% do PIB da zona Euro (e 1,9% do da UE), estamos longe de um perigo grave a pesar sobre a moeda única europeia e sobre a zona Euro. A título de exemplo, a cessação de pagamento da Calif´rnia (12% do PNB dos EUA) é infinitamente mais portadora de desestabilização do dólar e da economia americana. Além disso, uma vez que se encontra frequentemente sob as mesmas plumas uma lista exaustiva de todos os países da zona Euro que enfrentam uma crise grave nas suas finanças públicas (Espanha, Irlanda, Portugal aos quais acrescentamos a França e a Alemanha), é preciso ser completo e indicar os Estados Unidos — outro estado federal tecnicamente em falência [11] se o Fed não imprimisse dólares em quantidade ilimitada para comprar directa e indirectamente Títulos do Tesouro emitidos em proporções idênticas, e também a Califórnia (o estado mais rico da União a oscilar à beira do abismo desde há meses) e doravante 48 dos 50 estados com défices orçamentais crescentes [12] . Como resume o título do editorial de 14 de Dezembro de Stateline , o sítio web americano especializado nos estados e nas colectividades locais dos EUA, "Cenários de pesadelo assombram os estados" , é o conjunto dos estados dos Estados Unidos que tem medo de entrar em cessação de pagamento em 2010/2011.

E a zona Euro, que tem as mais importantes reservas de ouro do planeta [13] , reúne igualmente países que acumularam excedentes orçamentais até ao ano passado, um comércio exterior sempre excedentário e um banco central que não transformou o seu balanço em reservatório de activos "apodrecidos ou fantasmas" (tal como o faz o Fed desde há 18 meses). Portanto, se a crise das finanças públicas gregas indica alguma coisa, não é tanto a situação da Grécia ou uma problemática específica à zona Euro mas sim um problema mais geral que vai-se agravar fortemente em 2010: o facto de que as obrigações de Estado formam doravante uma bolha a ponto de explodir (mais de US$49.500 mil milhões ao nível mundial, ou seja, uma alta de 45% em dois anos) [14]

As degradações das notações efectuadas pelas agências americanas de classificação no rastro da crise de Dubai indicam que, como sempre, estas agências não sabem (ou não podem) antecipar este tipo de evolução. Lembremo-nos que elas não haviam visto as implicações da crise das subprimes ou do afundamento do Lehman Brothers e da AIG, nem igualmente a do Dubai. Como elas são dependentes do governo dos EUA [15] , não podem é claro por directamente em causa o duo no coração do sistema financeiro actual (Washington e Londres). Entretanto, elas indicam a direcção de onde vai vir o próximo choque, as obrigações de Estado ... e neste domínio os dois estados mais expostos são os Estados Unidos e o Reino Unido.

É igualmente muito instrutivo constatar que o discurso destas agência evolui subtilmente. Em algumas semanas passou-se da eterna explicação de que a qualidade intrínseca das economias e da gestão destes dois países [16] elimina todo risco de incumprimento de pagamentos por parte dos seus respectivos governos a uma advertência de que a partir de 2010 seria preciso demonstrar esta qualidade e estas aptidões de gestão a fim de manter o famoso Triplo A que permite tomar emprestado a menor custo [17] . Se mesmo as agências de classificação começam a pedir provas, é que as coisas são realmente muito mal.

Para concluir o caso grego, nossa equipe considera que a situação actual é triplamente positiva para a zona Euro:

  • ela obriga a considerar seriamente as medidas de solidariedade a efectuar neste tipo de situação. Os observadores vão assim ter de fazer uma escolha clara: ou eles tratam a Grécia como um país isolado, ou tratam-na como um componente da zona Euro. Mas eles não podem fazer as duas coisas ao mesmo tempo, somando a fraqueza da Grécia isolada a um enfraquecimento da zona Euro por causa da Grécia.

  • obrigam finalmente as autoridades gregas a fazer uma operação "Verdade" sobre o estado das finanças do seu país e vai permitir à UE avançar as reformas necessárias, nomeadamente para reduzir fortemente a corrupção e o clientelismo endémicos. [18]

  • deveria servir de exemplo aos governos europeus (e outros) que manipulam cada vez mais as estatísticas económicas e sociais, demonstrando que estas manipulações não fazem senão mergulhar os países ainda mais na crise. Infelizmente duvidamos desta ideia de que outros dirigentes seguiriam o exemplo do primeiro-ministro grego; em todo o caso, não antes de mudanças de governo no Reino Unido, nos Estados Unidos, na França ou na Alemanha, por exemplo.
  • Notas:

    (1) O consumo permanece sempre estagnado nos Estados Unidos, assim como na Europa (apesar das festas de fim de ano). O chamado crescimento chinês (ver este vídeo da Al Jazeera muito esclarecedor sobre a realidade por trás dos números chineses) não chega mesmo a estimular nem mesmo um pouco o do seu vizinho nipónico (o que seria um sinal certo de que há mesmo um re-arranque da economia chinesa) obrigado a ser o primeiro grande país a adoptar um segundo plano de estímulo económico em menos de dois anos (fonte: Asahi Shimbun, 09/12/2009). Em contra-partida, a manipulação de estatísticas bate recordes de actividade: baixa "radical" do desemprego nos Estados Unidos alimentada pelo emprego precário ligado às contratações de lojas antes das festas e por um modo de cálculo sempre "teórico" (fonte: Global Economic Trend Analysis , 04/12/2009), "Sexta-feira negra" cujas vendas baixaram de valor em relação ao ano passado (fonte: Reuters , 29/11/2009), desemprego que continua a aumentar e imobiliário de empresas em queda livre na Europa (fonte: Les Echos , 10/12/2009, e um interessante passeio visual através dos imóveis de escritório vazios em Amsterdam realizado por Taco Dankers , valor da produção industrial chinesa "confortante" em Novembro de 2009 porque comparado à baixa radical de Novembro de 2008. Que resultados fantásticos para as centenas de milhares de milhões dos planos de relançamento do ano 2009!

    (2) E acreditando nos bancos que lhes disseram que salvá-los era salvar a economia.

    (3) Fonte: USAToday , 14/12/2009

    (4) Fonte: CNBC , 08/12/2009 ; Yahoo/Reuters , 27/11/2009

    (5) Os dois terços do montante global estimado pelo LEAP/E2020 há mais de um ano, aqueles que ainda não desapareceram como fumo nos diversos mercados financeiros ou imobiliários do planeta.

    (6) É um resultado em baixa em relação aos 80% de 2008 mas que permanece elevado, em particular num ano excepcional, nomeadamente pelo grau de intervenção dos actores públicos e pela escala sem precedentes das suas intervenções que multiplicam os factores em jogo.

    (7) No aspecto "pressão fiscal", Londres e Dublim acabaram de abrir o baile (Fontes: Times, 06/12/2009 ; IrishTimes , 11/12/2009).

    (8) "Quando o sábio aponta a Lua, o idiota olha para o dedo".

    (9) E do Japão em menor medida.

    (10) Fonte: LaCroix , 05/10/2009

    (11) Fonte: New York Times, 22/11/2009

    (12) Fonte: CBPP , 19/12/2009

    (13) Assim, entre os bancos centrais nacionais e o BCE, a zona Euro possui 10.900 toneladas de ouro e os Estados somente 8.133 (fonte: FMI/Wikipedia , 11/2009). Ou, para sermos mais precisos: o Tesouro americano declara que os Estados Unidos possuem uma tal quantidade de ouro, sabendo-se que nenhuma auditoria independente acerca do montante exacto das reservas de ouro dos EUA foi efectuada desde há mais de quarenta anos. Retornaremos certamente com mais pormenores a esse assunto do montante real das reservas de ouro dos EUA no próximo GEAB (nº 41) uma vez que a nossa equipe considera que em 2010, face à explosão da bolha das obrigações de Estado, o ouro vai tornar-se novamente uma necessidade incontornável para os bancos centrais.

    (14) Fontes: DailyMarkets , 24/11/2009; Telegraph , 30/11/2009; Forbes , 24/11/2009

    (15) Legalmente e mesmo financeiramente, ver GEABs anteriores.

    (16) Atinge-se por vezes o mais absoluto surrealismo quando se lêem as considerações destas agências.

    (17) Fonte: Wall Street Journal , 08/12/2009

    (18) Fonte Financial Times, 12/11/2009

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